Pobre de marré de ci


Esta é a base das sociedades ou famílias ou pessoas que prosperam: amor ao trabalho


Imagino se de repente eu me visse pobre, absolutamente miserável, sem nada mais que a roupa do corpo, uma roupa esfarrapada, descalça, sem casa, sem carro, sem computador, sem cama, sem mesa, sem travesseiro, sem roupas, sem documentos, se eu tivesse perdido tudo e me encontrasse numa cidade estranha, onde não conhecesse ninguém e ninguém me conhecesse nem de nome. Bem, eu me dirigiria para a parte próspera da cidade, lá eu tentaria encontrar alguém que me conseguisse um banho e me emprestasse roupas e sapatos decentes e me ajudasse a tirar documentos, então sentaria num banco de praça e pensaria, faria um plano de sobrevivência, procuraria talvez uma livraria e pediria trabalho, diria que conheço todos os bons livros de literatura, em pouco tempo seria capaz de indicar leituras a leitores em qualquer área e saberia onde encontrar todos os livros nas estantes, seria capaz de contar as tramas dos livros, melhorar a qualidade de leitura dos interessados, e preparar um cânon para cada freguês. Enquanto não aparecesse uma vaga na livraria, eu dormiria no banco à porta de um mercado, ou num jardim com os passarinhos, ou no estacionamento de uma padaria, ou na carroceria de um carro parado, de manhã pediria um café com pão, a crédito, voltaria à livraria todos os dias na esperança de uma vaga, enquanto iria em busca de uma editora e me ofereceria para escrever orelhas de livros e todo tipo de texto, e preparar originais para publicação e revisar e preparar glossários ou bibliografias e padronizar textos, iria a pé até a universidade me oferecer para apoiar alunos em suas monografias e teses em Letras, proporia aulas particulares de literatura e escrita, ensinaria a se escrever redações, e poderia até mesmo, para ganhar uns extras, botar uma banquinha de escrevinhadora de cartas, como aquela personagem do filme, ou declamar versos nas esquinas, em troca de uns tostões na cuia... sei que, em um ano, eu já não seria mais miserável, teria um apartamento alugado e três trabalhos, umas mudas de roupas, amigos, alunos, quem sabe até um computador para trabalho e outras coisas além. Eu jamais seria eternamente pobre, porque não sou pobre culturalmente. Porque tive a sorte de receber educação. E além de ter a educação, sou qualificada. E tenho amor ao trabalho. Esta é a base das sociedades ou famílias ou pessoas que prosperam: amor ao trabalho.

Faz tempo, li no Rio a notícia de que uma família estava se alimentando de sopa de jornal. Cozinhava o jornal numa trempe de pedras, em uma lata com água, e tragava aquela pasta para ter a sensação de barriga cheia, mas sem nutriente algum. Fiquei tão perturbada com essa sopa de jornal, que jamais esqueci a notícia. Pensei em por que o pai, ou a mãe daquela família não teria tido a ideia de ir a uma feira de rua, e catar a xepa para fazer uma sopa, e guardar umas sementes de tomate e pimentão, e cebolinha e coentro e mandiocas e milho, plantar num terreno baldio e pescar na baía uns baiacus ao menos, ou catar uns mariscos nas pedras... mas, não... tão abandonada e despreparada e sem pensamento e desesperada de fome, a família, como animaizinhos, fazia a sopa de jornal velho. Aqui no Ceará, há pouco tempo, uma menina apareceu grávida do padrasto, a família morava num abrigo que tinha sido galinheiro, histórias de cortar nosso coração. São inúmeras as tragédias da miséria, profundas, dolorosas e terríveis, que varre essas vidas todos os dias. Miserável é chamado aquele que vive com menos de dois reais e pouco por dia: um pão, um prato de arroz?

A palavra mágica é: trabalho. Fazer tudo o melhor possível. Todos fazerem tudo o melhor possível, com a máxima dedicação. Assim, a economia vai o melhor possível, a educação o melhor possível, a saúde o melhor possível, o produto o melhor possível, a vida o melhor possível. Como conseguir isso? Uma revolução cultural, através da escola? Um gênio progressista, como Juscelino? Que dilema... Que desafio para nossos homens públicos bem intencionados, e para cada um de nós. Sei que ser pobre é um sofrimento constante, como o suplício de Tântalo, o rei condenado à fome e sede eternas: no meio de um lago de águas frescas e cristalinas, sedento, a água se escoava, e sob árvores carregadas de deliciosos frutos, quando estendia a mão para colher seu alimento, os ramos se afastavam. Nossos pequenos Tântalos de todos os dias, por todo lado, em torno de nós, vivem sua condenação eterna. E eu, também, me condenando, ah meu Deus, que tenho feito pelos pobres?



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