As Farmácias Vivas

Há toda uma tradição, sabemos, do uso de virtudes das plantas como medicinas. Nossos avós tratavam de insônia com chá de maracujá ou refresco de capim-santo; com o infuso de boldo amenizavam as cólicas; uma tisana de limão, com mel, era a mezinha contra os resfriados. Água de coco seria para hidratar as crianças, chá de erva-cidreira para o nervosismo, e assim por diante. Ontem, mesmo, a meiga Conceição andou colhendo em meu jardim umas folhas de colônia, que serviriam como “calmante, para coração acelerado e nervosismo”. Preocupada, imaginando casos de intoxicação pelo uso equivocado de plantas, fui ao livro Plantas medicinais, de Francisco J. de Abreu Matos. Ali estava a colônia, ou Alpinia zerumbet. Há uma descrição das folhas longas, das “belas inflorescências terminais de flores coloridas de amarelo e vermelho” e tudo o mais. Confirma o livro o uso anti-hipertensivo consagrado pelo povo, sob a forma de chá ou infusão. Conta que a planta veio da Ásia Oriental, trazida por dom João VI e plantada no Jardim Botânico do Rio, no período colonial, recebendo, portanto, o nome pelo qual a conhecemos. Outro nome, mais bonito: vindicá. Os estudos científicos confirmam a sabedoria do povo, mesmo os poderes sedativos. O livro ensina o modo correto de se preparar o chá, os cuidados a observar, dosagens, e ainda relata os princípios ativos contidos nesse vegetal. Nas páginas finais, fotos das plantas, para facilitarem sua identificação.

Tive o prazer de conhecer o autor do livro, Francisco Matos, uma dessas pessoas com que a humanidade se mostra mais elevada, homem dotado de sabedoria e perfeitos conhecimentos em sua área, era farmacêutico como o poeta Drummond. Dotado também de espírito público, ao se aposentar como professor da universidade decidiu se dedicar a algo que pudesse beneficiar as comunidades, especialmente as de pessoas mais necessitadas. A primeira providência foi pesquisar plantas medicinais usadas empiricamente pela tradição, para oferecer informações de efeitos comprovados. Durante anos o professor Matos bateu o interior nordestino colhendo espécies de plantas nativas, classificando-as de modo científico. Foram catalogadas mais de quinhentas, dentre as quais cerca de 130 encontradas em nossa região, registradas no livro que mencionei acima, publicado para oferecer conhecimentos aos estudiosos. Piqui, poaia, sete-bruxas, sete-dores, umbaúba, cambará, marcela, erva-botão, faveira, artemísia amarga, o versátil alecrim-pimenta, erva preferida do professor... E as propriedades: estimulante, expectorante, protetora solar, repelente de insetos, aromatizante bucal, afrodisíaca, cicatrizante e outras tantas, contra males os mais graves. Contou-me o professor Matos que um simples conjunto de quinze ervas seria capaz de prevenir ou curar cerca de oito males em cada dez, num grupo humano. E a riqueza de nossas ervas é majestosa. “Ervas, arbustos e árvores que enfeitam os campos e margens dos caminhos são tesouros valiosos para a medicina, onde são vistos por poucos olhos e compreendidos e investigados por poucas mentes. Em consequência desse descaso, toda a humanidade sofre uma perda imensa”, já dizia o naturalista Lineu, considerado o fundador da história natural, com seu Systema naturae, de 1735.

E o professor Matos (que nome tão adequado!), com uma equipe entusiasmada, criou as Farmácias Vivas, que são um plano de instalação de sistema que orienta uma comunidade sobre como plantar um horto de plantas medicinais básicas, preparar os remédios e usá-los de maneira segura, com o apoio de um farmacêutico e um agrônomo. As mudas são fornecidas pelo herbário que o professor Matos cuidava, na universidade, que mais parece um jardim mágico. Na publicação Farmácias Vivas, editada pela UFC e pelo Sebrae, há todas as informações para o plantio e uso de plantas como juazeiro, cajueiro, gengibre, açafrão, agrião, acerola, chá-preto, tomate, poejo, malvariço, alho, romã, malva-santa, copaíba... sessenta tipos. As Farmácias Vivas foram implantadas em mais de cinquenta lugares no Ceará, Piauí, Brasília, ou Pará, sem contar os inúmeros hortos criados sob sua inspiração, sempre atendendo a gente que vive distante ou não tem acesso à saúde pública ou a remédios, retirando das filas de postos e hospitais aqueles casos mais cotidianos. E aliviando tantos sofrimentos. Como um poeta, Matos adentrou, palavras antigas de Lineu, “os segredos divinos” e trouxe às claras “os que estavam encerrados no sacro interior da natureza.”



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