Nossos coqueirais


"O que seria das praias cearenses sem coqueiros? o que seria de Iracema sem coqueiros?"

“Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros”... Lá estava José de Alencar, falando dos coqueiros tão nossos e de nossas paisagens, o que seria das praias cearenses sem coqueiros? o que seria de Iracema sem coqueiros? o que seria de mim, o que seria de nós... Aqui onde moro há alguns, ainda, não na praia, mas que foram sobrando pelos terrenos das casas, ou nos baldios, muitas vezes por descuido, outras, por amor.

Amo a sua maravilhosa presença, são eles que completam a imagem paradisíaca dessa paisagem, porque criam uma sensação de leveza e serenidade. Nas brisas eles balançam com uma suavidade quase sensual, farfalhando uns sons agradáveis, acalanto ou cantiga de Dorival. Talvez eu os aprecie tanto por terem sido presenças de minha infância, lembro que nossa casa na Aquidabã tinha ao lado um areal com coqueiros. Toda Fortaleza era pontuada de coqueirais, o que lhe dava uma atmosfera incomparável. Ainda mais, ao luar!

Dia destes o meu amigo sábio professor me questionou acerca das origens do coqueiro: indiano ou africano ou sul-americano? Veio dar nas nossas costas flutuando pelas correntes marítimas e aqui se enraizou? Veio nos porões de caravelas para ser cultivado? Um dia talvez descubram. Mas são bem antigos os coqueiros, estavam aqui quando vieram os primeiros narradores, estavam por aqui dando palhas para cobrir casas, para fazer cestas, oferecendo sua água deliciosa e sua polpa e leite nutritivos para os velhos habitantes. Já fala deles em 1578 o frei Vicente do Salvador, primeiro historiador brasileiro, dos palmares de cocos grandes que se colhiam muitos, e comiam e bebiam a água que tinham dentro, sem os aproveitar como na Índia, onde com palmeiras se armavam barcos a vela. Mas diz que eram cultivados.

Pouco depois o português Gabriel Soares de Souza anotava, na seção das árvores transplantadas, que as palmeiras que davam cocos cresciam bem melhor aqui do que na Índia, bastando enterrar um coco em terras arenosas, esperar, sem regas ou maiores cuidados, e a palmeira dava frutos em cinco a seis anos, quando na Índia eram precisos vinte anos para frutificar. E que os primeiros cocos foram para a Bahia levados de Cabo Verde.

Alguns botânicos afirmam que o coqueiro foi introduzido no Brasil em 1553, tempo do padre Manoel da Nóbrega e da minha Oribela, e a tempo de se espalhar, até dar na costa cearense e ensombrar as alvas areias onde pisava nossa índia mítica. Concordo com os estudiosos, mas eu gostava mais que os cocos viessem flutuando pelos oceanos e chegando aqui por conta própria, seduzidos por nossas praias e querendo povoá-las de doçuras e belezas, e fazerem parte da lenda de Iracema, das pinturas no romantismo, das canções de pescadores. Interessante, os antigos falam em palmares de cocos, ou palmeiras que dão cocos. Coqueiro veio depois, era só mesmo coco.

O nome tem origem curiosa, diz o historiador João de Barros, do século 16, que foi dado pelas mulheres. Talvez elas pusessem uma cabeça de coco à janela para fingir de coco, que era monstro imaginado com o intuito de fazer medo às crianças. Talvez o barulho das palhas na ventania atemorizasse os pequeninos. Vai drumi, minino! Lá ê vem o coco! Já acordei, uma noite, com um barulho assustador e fui olhar, era a ventania nas palmas do coqueiro que fica ao lado de meu quarto. Parecia o alarde de uma ave se incendiando, estalando, chicoteando e batendo as asas gigantes. Certo, professor?

Seja como for a sua história, o coqueiro, a árvore, sem falar na água, na cocada, na cestinha, no óleo, no peixe ao leite de coco, no cuscuz nunca sem ele, na nata de coco, no sorvete de coco, na salada de coração-de-coco, na ração de coco, na madeira de casas pobres e seus telhados, no carvão de lenha de coco, no combustível de fibra de coco, nas cuias de coco que batidas fazem barulho de casco de cavalo, nas cordas e tapetes de coco, nos estofos, coxins de orquídeas, no dom da hidratação de crianças, no potássio, no cloreto, no cálcio, na subsistência de pobres, na economia de ricos, no passeio do turista, nos belíssimos jardins ornamentais dos resorts, o coqueiro é a coisa mais linda e benéfica numa areia seca e quente.

Queria que replantassem os coqueirais da minha praia de Iracema. Pois a índia foi enterrada ao pé do coqueiro que Martim amava, e diz a lenda que quando o vento do mar soprar nas palmas Iracema pensará que é a voz de seu amado que fala entre seus cabelos...



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