Africanos no Ceará, e Paulo Speller

"Da minha varanda, quase vejo a costa africana, basta seguir as correntes com os olhos e chegarei a Dacar"

A África é fascinante, com as savanas, os leões, vodus e guerras, fascinantes os africanos em infinitas tribos, com suas roupagens coloridas, suas esculturas de ébano, as misteriosas crenças e entidades mágicas, seus tambores que batem como corações de leopardos, seu caminhar altivo de girafas, os ossos tão equilibrados... Da minha varanda quase vejo a costa africana, basta seguir as correntes com os olhos e chegarei a Dacar, a Bissau, e se os ventos soprarem para o sul, a Luanda, ou a dobrar o cabo da Boa Esperança.

As minhas dunas parece que são das mesmas areias do Saara, alvas como a lua, que vieram com o vento, trazendo pegadas nômades. Os africanos chegaram ao Ceará bem no começo, vinham como escravos dos primeiros colonizadores, ou fugiam para nossos fins de mundo onde alguns conseguiam a alforria. Eram poucos, comparando com outras capitanias, porque valiam muito e éramos pobres; os índios custavam apenas alguns tiros de bacamarte ou rezas cristãs. No tempo dos plantios de algodão nós ficamos ricos e pudemos comprar negros, mas o fizemos como um investimento: eles eram o ouro negro.

Mesmo assim, os africanos vieram para ficar, aliavam-se e serviam aos senhores numa relação de proximidade forçada pelas tragédias do pioneirismo, e muitos foram seus amores com brancos e índios, formando famílias e descendência. Hoje sentimos orgulho de sermos os primeiros a libertá-los, a não ter escravos, uma história que conhecemos bem e pulsa em nossas lembranças antigas, passada em jangadas, portos e fazendas, com homens ousados, mulheres piedosas, dragões do mar. O Ceará merece ter aqui o centro de saber que vai estreitar as amizades entre África e Brasil, exatamente em Redenção, cidade pioneira na abolição da escravatura. É a Unilab, que está sempre nos jornais, a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, as vozes portuguesas da África, o Campus da Liberdade, uma ideia excelente que está entregue às melhores mãos, as de Paulo Speller.

Quando soube que Paulo Speller estava no Ceará, fiquei cheia de brios. Conheço-o desde os tempos de estudante em Brasília. Ele era universitário e eu, ainda secundarista, mas minha escola ficava dentro da UnB, a Universidade de Brasília, onde Paulo Speller era líder estudantil, dos mais arrojados, admirados, cercado de lendas e auras. Nem sei quantas vezes o ouvi em comícios nas ruas de Brasília e o vi escapando pelas quadras em meio a gases que faziam chorar, vomitar, arder, ou no auditório lotado da UnB, ao lado de outro sujeito (no sentido filosófico) fantástico, o Honestino, nosso herói e mártir.

Em perfeito silêncio o ouvíamos, Paulo Speller falava levantando as sobrancelhas, com um jeito bem mineiro. Não precisava elevar a voz para magnetizar os estudantes, fazia-o com sua voz sincera, clara e suave, e com a força interior, feita de fé e de ideais. Sua figura clara e de cabelos dourados parecia um raio de luz na multidão, ele sempre foi um ser iluminado, nítido. O que ele dizia, nós depois discutíamos sentados nos gramados do campus, à sombra das árvores ou debaixo das estrelas, sob os estigmas de nosso tempo, a pureza de nossa juventude. Quando soubemos que ele estava preso nossa agonia foi imensa, como se tivessem arrancado um pedaço de nós. Depois soube que ele teve de fugir e viver exilado; escolheu o México, em seguida a África, e essas escolhas foram significativas de seu pensamento, seu compromisso com o sonho de um mundo menos injusto.

Os estudos que formam sua biografia são também comprovações de uma escolha: educação, leis e burocracia e violência nas fronteiras amazônicas, análises experimentais da compreensão da leitura, da percepção, da memória, da motivação, da alfabetização, do desenvolvimento das crianças, do comportamento, enfim. Uma biografia humanística, acima de qualquer melindre ou proselitismo. É um sujeito (no sentido filosófico) aberto e permeável ao tempo. Para quem é curioso: sujeito, no sentido filosófico, é o indivíduo real, portador de determinações, capaz de propor objetivos e de praticar ações.

E cá está ele, plantando um pedaço de África em nossas terras, pelas serras neblinosas do Baturité, onde imagino professoras negras com turbantes coloridos, abraçadas a maços de livros, rapazes-girafas e moças-girafas com suas aptidões e os sonhos dos tempos atuais, vindos não pela violência, mas pelo sonho da liberdade, entoando seus ritmos interiores, guiados pela busca da soberania pessoal e, quem sabe, de todos.

"O Ceará merece ter aqui o centro de saber que vai estreitar as amizades entre África e Brasil"

"Quando soube que Paulo Speller estava no Ceará, fiquei cheia de brios. Conheço-o desde os tempos de estudante"

"O que ele dizia, nós depois discutíamos sentados nos gramados do campus, à sombra das árvores"

"E cá está ele, plantando um pedaço de África em nossas terras, pelas serras neblinosas do Baturité"



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