Turistas acidentais

 

 

 

         Tem gente que detesta turistas. Nossa querida Rachel, mesmo, dá-lhes uma descompostura numa crônica, fala de seus “trajos ridículos”, de seus “impulsos recalcados em anos de inferioridade que rebentam” numa violenta metamorfose cultural, em sua pose de “conquistador em terra vencida”. Insolentes, mal-educados no trato, desrespeitosos, petulantes, gozadores, odiosos, importunos, “gafanhotos à solta num roçado”. São um mal necessário, que “só se tolera porque é uma fonte de renda apreciável”. E sugere que se distribuam livrinhos de boas maneiras, explicando os costumes e tradições locais, ensinando regras mínimas para que se comportem como visita em casa alheia, entendam que “aquela cidade, aquela aldeia, por ser diferente da sua, por carecer de certas amenidades da civilização, é um agrupamento humano respeitável, cheio de tradições, orgulhoso do seu passado, da sua gente, dos seus costumes, daquele complexo de evocações, parentesco e lembranças”. Dizem que Rachel sofria com turistas que iam ver a sua fazenda, Não Me Deixes. Os que chegam aqui na minha praia incomodam, sujam, fazem festas ruidosas madrugada adentro, estacionam na frente da minha garagem e jogam cacos de garrafas e pontas de cigarro no meu jardim, conversam em altos brados debaixo da minha janela em horas tardas, entre outros inconvenientes. Geralmente, pessoas de lugares não muito distantes. Os estrangeiros, alguns, fazem outro tipo de violência. Assim que me mudei para cá, vieram bater à minha porta duas meninas de uns doze anos, vestidas em roupinhas provocantes, perguntando se aqui ia morar algum “gringo”. Cortaram meu coração.

         Realmente, o turismo é uma “indústria” difícil de controlar. Vem gente de todo canto do mundo, trazendo suas ânsias e costumes, suas exigências compradas em geral com economias do ano todo, e a vontade de sair como “marinheiro bêbado em porto livre”. Mas a verdade é que o turista é também um retrato da cidade que o acolhe. Se há sujeira nas ruas, o turista joga seu copo de papel e guardanapo nas ruas. Se há barulho, ele faz barulho. Se há prostitutas, ele as prostitui. Se há esbórnia, ele esbornia. Se há descontrole, ele se descontrola. E o tipo de turista que viaja para cada cidade vai em busca do que ela oferece. Se a cidade oferece museus, concertos, aquários, passeios bucólicos e ecológicos, paisagens, atividade educacional, científica, folclórica, esportiva, atrai um tipo de turista mais refinado e calmo, mais respeitoso, e mesmo, de maior poder aquisitivo. Se oferece carnavais, boates, bares, humor primário, paredões de som, atrai mesmo é a turma da pancada. “Venham se esbaldar”, oferecem, mas depois, não reclamem. O turista quase nunca é acidental.

Vi uma vez, numa feira europeia, um estande brasileiro coberto de cartazes com fotos de mulatas de costas e quase nuas, enquanto tocava um samba tonitruante. Era o próprio Governo oferecendo nossas plagas, dentro de um conceito colonial, em que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”. Eu mesma, voltando de meu turismo familiar, quando vou à Califórnia visitar meus netinhos, a primeira atitude é atravessar a rua fora da faixa de pedestres feliz da vida com a minha liberdade. Porque lá, não atravesso a rua no sinal vermelho, mesmo quando não há nenhum carro à vista, porque sei que um morador vai me criticar e exigir que eu me comporte dignamente dentro dos costumes locais. E só me sinto bem aqui em meu país, onde me acostumaram com a liberdade. Mas essa liberdade fascinante de que fruímos, e encanta os estrangeiros de países amarrados em normas de comportamento, que aqui se sentem tão felizes, tem um preço. Nosso desafio é encontrar um equilíbrio entre regras e liberdade.

         Nós todos somos turistas, algum dia. Mesmo o mais pobrezinho um dia toma um ônibus e vai para o interior, visitar uma avó; bandos se arrumam em frete e o grupo vai espairecer numa praia não muito distante. Quem é que não precisa de contato com a natureza, um banho de cachoeira, um castelo na areia, uma caminhada nas matas, olhar as vaquinhas no pasto, sentir o vento debaixo de um coqueiral, tomar uma cervejinha com os pés nas águas frias do maceió? Ou umas voltas nas antigas ruas parisienses, comprinhas em Miami, diversão em majestosos parques infantis, shows de baleias, ou de jazz? Quebrar a rotina, ver novas paisagens, novos comportamentos, esquecer os problemas, as regras, o frio, a neve, a parede da própria casa, a janela que dá para outra janela, o cimento diante de cimento...



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