Mulheres na Abolição II

Em 30 de novembro de 1882, chegou ao porto de Fortaleza o Tigre da Abolição, José do Patrocínio. Desembarcou do vapor Ceará, diante de uma multidão que o esperava no trapiche. Quando pisou na ponte, um escravo o beijou, e mulheres o cobriram de rosas cortadas nos jardins da cidade. Iam iniciar as libertações coletivas começando por Acarape, onde havia menos escravos, cerca de 30. O plano era libertar a todos, de um em um, de cidade em cidade.

Aonde ia Patrocínio, era grande a festa. “Bem se pode calcular o júbilo dos libertadores com a presença do admirável Demóstenes nas flamejações da sua retórica derramadas a cada instante e nas conferências que pronunciava no pequeno teatro São Luís, sempre rodeado de comissões da Libertadora e desenvolvendo temas alusivos à escravatura e à urgência de exterminá-la. As entradas eram pagas e o produto destinado às despesas com a indenização dos últimos escravos do Acarape”. Palavras do nosso historiador Raimundo Girão.

Na noite de 18 de dezembro, na chácara de José do Amaral, no Benfica, reuniram-se a fim de convocar a valentia das mulheres para uma sociedade contra a “mancha negra”. A força feminina seria fundamental para a causa. Levantou-se Patrocínio e disse: “É preciso fazer da fraqueza (acho que ele queria dizer delicadeza) da mulher o mais forte de todos os poderes, a evangelização pelo encanto, a libertação pela magia de sua graça”. E fundaram a sociedade das Cearenses Libertadoras.

Foi aclamada uma diretoria provisória: Maria Tomásia, Carolina Cordeiro, Luduvina Borges, Jacinta Augusto Souto, Elvira Pinho, Eugênia Amaral, e mais Virgínia Salgado, Jovina Jataí, Branca Rolim, Francisca Nunes da Cruz, Jesuína de Paula Pimenta, Maria d’Assunção dos Santos Castro, Maria Teófilo Martins, Stefânia Nunes de Melo, Marieta Pio de Castro, Narina Martins de Sá e tantas outras. Nomes que gosto de relembrar. Eram mulheres apaixonadas pela causa que antes fora de seus maridos, ou irmãos, pais... Nas reuniões, 50 moças vestidas de branco simbolizavam os municípios onde ainda havia escravos a serem libertos. Numa ocasião, Carolina Cordeiro tirou seus brincos de brilhante, anéis, colar de pérolas, e entregou as joias como contribuição, estimulando a que as senhoras presentes fizessem o mesmo. Elas encheram o chapéu de João Cordeiro, para mais manumissões.

Sobre as “mimosas filhas de Moema”, sabe-se algo. Maria Tomásia, A Libertadora, possuía o dom da oratória, e se impunha por seus dotes morais e sua presença de espírito, diz Girão. Era senhora da sociedade, descendente de tradicionais famílias sobralenses. Infatigável, intrépida, dinâmica, foi a alma da campanha feminina, nas palavras de Elvira Pinho, sua companheira de todos os minutos. Elvira tinha apenas 22 anos. Nascida em Maranguape, era professora primária em Fortaleza, e depois, mestra de piano. Tinha espírito abertamente devotado às causas cívicas. Carolina, filha de um reconhecido médico, mulher de trinta anos, casada e mãe de seis filhos, foi das mais entusiastas. Jacinta, conhecida como Dondon, filha de senador, possuía alta inteligência e superior instrução. Estefânia era neta do barão de Santo Amaro. Houve abolicionistas negras, pardas, mulatas, pobres, mas essas atuações sempre ficavam sem registro.

Algumas escritoras tomaram parte na luta, travando batalhas na arena da imprensa. Escreviam poemas abolicionistas inspirados nos versos de Castro Alves, publicados no jornal O Libertador. E atuavam. A poetisa Emília Freitas subiu a um palanque, nervosa, pedindo desculpas por não possuir títulos nem conhecimentos, mas orgulhosa ofereceu a sua pena que “sem ser hábil, é, em compensação, guiada pelo poder da vontade”. Maria Tomásia pronunciava orações que levantavam os ouvintes. A escritora Francisca Clotilde arrebatava, declamando seus poemas. Aquelas “angélicas senhoras”, “heroínas da caridade”, levantavam dinheiro para comprar liberdades e usavam de seu entusiasmo a fim de convencer os donos de escravos a fazerem alforrias gratuitamente.

Saíam de família em família, de sítio em sítio, tentando conquistar novas cartas de alforria. Seguiam em grupos, entoando hinos e carregando faixas. Tomavam atitudes, entusiasmadas. A cada novo liberto, faziam passeatas, danças, recitativos, desfraldavam bandeiras e estendiam colchas coloridas nas janelas. Em 24 de maio de 1883 o Ceará estava livre da escravidão. Fortaleza “nunca se adornara nem se iluminara assim, cada qual dos seus habitantes se esmerando nas homenagens, até nas areias ou subúrbios, onde os pobres nada mais podiam fazer que fincar no chão, em frente aos seus casebres, uma vela de cera de carnaúba, a arder votivamente”. Tomásias, Luduvinas, Virgínias, Carolinas, Jovinas, Narinas... Quem serão seus descendentes?



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