Os trabalhos e os dias




Passei o 1º de maio de cama, Dia do Trabalho, dia do aniversário de Otto Lara Resende... Lembranças e saudades... Eu estava doentinha, e fiquei descansando: cama, rede, varanda, varanda, rede, cama... Estava tudo fechado, nada de mercados, nada de trabalho no Dia do Trabalho. Passeios, festas, recreação por todo lado, os sons das risadas lá vinham, as músicas, talheres... Garçons trabalharam, enfermeiros, policiais, atendentes em posto de gasolina, médicos de plantão, recepcionistas, entregadores, cozinheiros, motoristas, jornalistas trabalharam, padres, as jangadas foram ao mar... Muita gente trabalhou, a máquina não pode parar. Mas eu... não movi uma palha. Só fiz mesmo foi juntar o lixo que o cachorro querido Shico espalhou, e jogar uma água com detergente nas pedras sujas. O resto do tempo, cama, rede, varanda, varanda, rede, cama... Quando terminou o dia, eu estava tão cansada que ansiava, Ah Deus dai-me um trabalho para eu descansar desta modorra! O príncipe de Gales, não o que casou dia destes, mas aquele antigo, Henrique IV, diz numa peça de Shakespeare que se o ano fosse feito só de feriados, esperaríamos ardentemente o dia de trabalho, e brincar, folgar, seria tão cansativo quanto nos parece o trabalhar. O bom-humor de Shakespeare para dizer boas verdades... Verdade, parece que o que cansa é a rotina, a obrigação, e não a atividade. Por outro lado, diz o pastor Emerson que felicidade é preencher o tempo. E acho que ele tem razão, pois, quando estou preguiçosa, me sinto infeliz, a calmaria me entorpece e deprime. Será que é um condicionamento da sociedade? Trabalhe, Ana! Trabalhe! A sociedade precisa de você! Faça a sua parte! Seja útil e você terá sua recompensa! E trabalho, trabalho, trabalho, ando até adicta do trabalho. Não consigo viver sem trabalhar. Adoro trabalhar, e só vejo o quanto o trabalho me faz bem. Meu avô dizia, o ócio é amigo do vício.

Quando movimento meu corpo, parece que um líquido de felicidade se espalha e não tenho medo de nada. Se estou adormecendo, parada, imóvel, os problemas ficam tão imensos, tão sem solução! Acho que é a leitura que meu cérebro faz da impotência física, que se transforma em mental, porque, quando acordo de manhã e me movimento novamente, os gigantescos problemas que me atormentavam tomam uma dimensão muito menor, às vezes são até problemas singelos. Mas era só isto? Mas isto eu resolvo facilmente... E movimentar a mente é ainda mais prazeroso, traz a sensação de viagem, de liberdade, de conhecimento, e o sabor mais espirituoso do licor da inteligência. Sei que há uma relação entre trabalho e felicidade. O Freud não dizia que precisamos de apenas duas coisas para ser felizes: trabalho e amor?


Nossa Rachel, sempre a Rachel, dizia que para as pessoas das cidades a felicidade é ter coisas, ter computador, televisão, celular, geladeira, carro, roupa de grife... e para isso o homem urbano se mata de trabalhar. Mas para o pessoal lá do sertão, dizia Rachel, a felicidade é mais subjetiva, para ele ser feliz é ser livre, não precisar trabalhar, ou, pelo menos, não precisar trabalhar obrigado. Sei de nada. Sei apenas que gosto, adoro trabalhar, seja que trabalho for, descascar batatas, varrer gramado, lavar alface, passar roupa, botar mesa, revisar livro, faxina no armário, organizar álbuns de fotos, jardinagem... Escrever, que é a minha rotina, é uma adoração mais complicada. O dia em que escrevi, seja o que for (crônica, romance, orelha de livro...), é dia ganho.


Sei que o trabalho que detesto é o burocrático, odeio burocracias, quando tenho de tirar uma xerox na esquina passo o dia irritada (um pouco de exagero). Todos os meses tenho de enfrentar uma burocracia de tirar notas fiscais, mas acabei encontrando um certo prazer nesse trabalho tão chato, porque reencontro as moças da repartição, malhamos os cortadores de árvores, passo na papelaria e compro papéis e pastas para organizar meus recortes, e no correio, conversinhas políticas com o Pádua, vou e volto, volto e vou, sol e chuva, chuva e sol, quando termino o trabalho sinto o prazer da obrigação cumprida. Fiz! Consegui fazer essa coisa tão surrealista que é tirar uma nota fiscal, absurdo dos absurdos, como pode existir algo assim? Nem Salvador Dali teria imaginação para tanto! Mas enfrentei! Consegui! Viva! Deve ser o mesmo que sente uma pessoa que tira notas fiscais todos os dias, diante de um dia em que conseguiu escrever uma página! Alhos e bugalhos... Estou doentinha, delirando um pouco, permitam-me.



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