Chico da Silva, o Dragão da Mata

Sempre fui fascinada pelas pinturas de Chico da Silva. São dramáticas as formas dos animais, inesperadas suas projeções no espaço, e belíssimos os obsessivos e quase irracionais ornamentos. Essas pinturas me fazem sonhar e me tocam a sensibilidade, o seu profundo mistério me magnetiza. De onde vêm esses seres?

Só quando me mudei para o Ceará fiquei conhecendo melhor esse artista, pois jamais encontrara um livro sobre sua obra. Mas, um dia, revirando um acervo de livros usados, lá estava Chico da Silva, do delírio ao dilúvio, de Roberto Galvão, uma edição rudimentar, mas com um texto esclarecedor sobre o percurso desse grande artista. É uma biografia sofrida e milagrosa. Ele nasceu no Acre, no meio da floresta amazônica, região do Alto Tejo. O Acre é quase uma extensão do Ceará, devido às intensas migrações de trabalhadores cearenses para a extração da borracha. A mãe de Chico da Silva era cearense, e casou-se com um caboclo peruano, talvez descendente dos índios kampa. Ali é quase fronteira com o Peru. Chico veio menino para o Ceará, indo morar em Quixadá, depois em Guaramiranga. Talvez esteja nessa infância a origem de seus seres imaginários e de sua delicadeza estética. Ele declarou que fora educado por índios e por missionários. Essa convivência com uma floresta amazônica repleta de animais deslumbrantes, cores variadas, detalhes infinitos, o dia a dia com os índios e suas artes plumárias e pinturas corporais, seus artesanatos entrançados e minuciosos, com a religiosidade e superstição dos povos silvestres, as lendas e mitos; depois a convivência com as áridas paisagens de caatinga, repletas de cactos, espinhos, formas sinuosas, e superstições; em seguida a experiência de Guaramiranga, com suas matas quase tropicais e ciliares, as orquídeas e bromélias de formas fantásticas e tão sugestivas; essa combinação de experiências visuais e sensoriais com a sua sensibilidade formal e extremada imaginação, a contemplação de paisagens de uma pureza atemporal, e mais os sentimentos angustiosos de orfandade e pobreza, criaram seus dragões.

Já morando na bucólica aldeia de Pirambu, entre mares e morros de areia, o rapazinho talvez se sentisse solitário, desamparado. Morto o seu pai, ele trabalhava consertando sapatos, fogões, sombrinhas, ou fabricando fogareiros de lata. Não sabia ler nem escrever. Como um gesto desesperado de comunicação, passou a rabiscar nas humildes paredes de taipa das casas dos pescadores, usando simplesmente carvão ou pedaços de tijolo, fragmentos de barro, frutas, delineando em murais os seus seres imaginários. Os moradores chamavam-no de “o indiozinho débil mental”, palavras que demonstram certo carinho, mas uma grande incompreensão por sua “escrita”.

Um dia passou por ali um artista suíço, Jean Pierre Chabloz, e percebeu o extraordinário talento contido naqueles grafites rústicos. Deu a Chico da Silva um maço de cartolinas, tinta nanquim, guaches, pastéis, lápis, penas e pincéis. Semanas depois, Chico apresentou-lhe os primeiros trabalhos. Assim começou a florescer a sua arte “saturada de inesquecíveis visões amazônicas”, mas também cearenses, pois vejo em sua obra laços profundos com os pontilhados coloridos de mestre Noza, com os ornamentos sinuosos das vestes dos vaqueiros, ou com os trabalhos das rendeiras.

Chabloz comprava as pinturas e guiava-o sempre em direção aos sonhos. Quando Chico já produzira um bom número de obras, Chabloz escreveu uma resenha que foi publicada na revista francesa de maior prestígio na época, Cahiers d’Art. Chico da Silva era, então, um dos maiores artistas ingênuos do mundo, com obras em coleções sofisticadas. Na Bienal de Veneza recebeu uma menção honrosa, inédita para a arte brasileira. Seus quadros eram desejados e disputados. Criou uma oficina em Pirambu, onde discípulos desenhavam sob seu estilo, e ele assinava as obras. Faz-me lembrar o artista brasiliense, Athos Bulcão, que criava azulejos como módulos e pedia aos operários que os cimentassem livremente nos painéis, imprimindo uma ingenuidade estética. Chico não tinha a visão enciumada de autoria, e não era mais apenas um artista, mas um estilo, como Vitalino. O próprio Chabloz percebeu a natureza ampla dessa obra e destacou sua vocação para a arte aplicada, como tapeçarias, bordados, cerâmica, vidros, panos, com as figuras de Chico. Incrível que ainda não exista!

Pensando, aqui com meus botões, na revitalização da orla de Fortaleza, imaginei um museu na praia Formosa, em Pirambu, dedicado à obra desse grande artista.



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