Sanfonas e sanfoneiros


A oito baixos, que uns chamam de sanfona pé-de-bode, tem afinação diferente, bem nordestina


Só não toca quem não quer, diz o Hermeto. Mas um dia minha irmã trouxe uma sanfona para as crianças, e tentei tocar, acho que eu não queria, pois não saía nada, quando ia não voltava, quando voltava, desentoava. As crianças tentaram, saía uma coisa bonita e livre, uma nota de cada vez, só mesmo a irmã musicista para tirar melodias e acordes naquela sanfoninha rude, alegrando as manhãs da casa. É instrumento difícil, ainda mais a sanfona de oito baixos, por isso o Luiz Gonzaga cantava: Respeita os oito baixos do teu pai. A oito baixos, que uns chamam de sanfona pé-de-bode, tem afinação diferente, em dó, bem nordestina. Requer muita habilidade, os sanfoneiros quase todos começam a tocar na infância.

Luiz Gonzaga, com sua sanfona branca parecendo uma orquestra inteira, aprendeu com o pai Januário, lavrador, que tocava, afinava e consertava sanfonas. Ali na fazenda Caiçara, zona rural de Exu, no sopé da serra de Araripe, lado de lá, o menino Gonzaga começou sua arte de sanfoneiro, e veio cantando nossas tristezas, injustiças, nossas aves, cidades, o nosso sertão profundo. A sanfona se presta também à melancolia, alongando as notas, chorando, sufocando, aboiando. O Velho Lua cantou para todo o Brasil, quem não sabe acompanhar: Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João eu perguntei a Deus do Céu por que tamanha judiação...?

Também dos primeiros sanfoneiros é o grande Sivuca, paraibano de Itabaiano, que levou a sanfona para a classe alta dos instrumentos, mostrando sua amplitude e variedade sonora, a tocar em orquestras sinfônicas. Exímio instrumentista, ganhou uma sanfona do pai quando tinha nove anos de idade e no ano em que nasci, 1951, ele já fazia sucesso nacional interpretando “Tico-tico no fubá”, do Zequinha de Abreu. Chamado O Poeta do Som, levou a sanfona nordestina para o mundo.

Sivuca e Luiz Gonzaga são os pais de quase todos os sanfoneiros nordestinos, como o Dominguinhos, de Garanhuns, que inovou a execução ao instrumento, mas cujo coração se incendeia mesmo é quando toca o forró, a toada e o baião. Pais de Hermeto, alagoano de Lagoa da Canoa, onde menininho cortava talo de mamona de jerimum, fazia os furos e tocava aquele pífano para os passarinhos, e tocava fazendo barulhos com a água da lagoa, e que com sete para oito anos pegou a oito baixos de seu pai e não deixou mais. Do velho Azeitona, o Sanfoneiro Pesadinho, baiano radicado em Fortaleza, que contava ter ganho sua primeira sanfona de Luiz Gonzaga. E pais e avós de tantos sanfoneiros, como o Vanim do Acordeom, de Maranguape, Darlin do Acordeom, de Madalena, Adelson Viana, cearense muito ativo, que organizou uma orquestra de sanfonas; ou Luizinho, o paraibano mais cearense, que toca a pé-de-bode, e o Waldonys... tantos... Sei que acontece um festival de sanfonas no Limoeiro, terra do bom João Bandeira, onde escutei um menino sanfoneiro de quem nunca esqueci.

Problema sério são os “forrós de ônibus”, fazendo confusão com o gênero, que o Zé Calixto, craque nos oito baixos, diz não ser forró, mas lambada. Forró tem delicadeza e melodia, tem poesia, alpercata arrastando na poeira, tem cheiro de fogueira e fulô. Valia a pena um levantamento, um livro sobre os sanfoneiros de verdade, deve haver tantos exímios nas quebradas do sertão do Ceará... Não só sanfoneiro, como afinador, feito o mestre Vanutério, no Iguatu; Luiz Gonzaga afinava a sua com o mestre Vitor, que aprendeu com o antigo mestre Vanutério, e deixou sua arte para o mestre Francisco Chagas, que desmonta, mexe, conserta, encera o cavalete, reforma o fole, e afinal, afina, coisa que só consegue fazer quem tem ouvido de sanfoneiro e sanfoneiro foi, ou é.

O som da sanfona é antigo nas nossas vidas cearenses, ao menos na minha vida de criança cearense, quando na nossa casa da avenida Aquidabã soavam, despejadas daquele rádio antigo e chiado, quase se viam, as notas: Que beijinho doce, que ele tem, depois que beijei ele nunca mais amei ninguém... ou então: Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou, e a menina, que gostava tanto do bichinho, chorou, chorou, chorou, chorou; santa ingenuidade tocada na sanfona de Adelaide Chiozzo, paulista, mas cidadã cearense, acho que por motivo de haver soado nas nossas casas cearenses dos velhos anos 1950.

Vamos ouvir as nossas sanfonas boas, tocadas com sensibilidade, para enlevar, desafiar, fazer sonhar, para alegrar docemente nossas vidas cheias de dilemas. Para guardar nossa tradição sonora. Toque, sanfoneiro, toque!.



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